São raros, estes dias em que me sinto capaz de brilhar mais que as belezas convencionais. Não sei como surgem, nem porquê, nem quando, mas pouco me importa. Basta-me desfrutá-lo, como uma flor que desabrocha.
16 March 2008
Dias raros...
São raros, estes dias em que me sinto capaz de brilhar mais que as belezas convencionais. Não sei como surgem, nem porquê, nem quando, mas pouco me importa. Basta-me desfrutá-lo, como uma flor que desabrocha.
6 March 2008
Porto de abrigo
- Não aconteceu nada.
Sorri. - Nem eu esperava que acontecesse. - E era verdade. Mas...
- Quis dizer-to na mesma. - Deu-me um abraço daqueles que são mais apertões do que abraços de facto, e reparou no ecrã.
- Ainda tens muito trabalho para fazer?
- Algum...
- OK... - Tinha-me virado outra vez para o computador, e estava outra vez atrás de mim, com os braços à minha volta, por cima dos meus ombros. Não sei porquê, adora pôr-se assim, quando está descontraída. Encostou a face ao de leve na minha cabeça, e deixou-se estar, em silêncio. Por uns instantes, limitei-me a sentir o peso dela nos meus ombros, a pele que me tocava a orelha, o calor da respiração... Quando abri os olhos, quebrou-se o encanto: o reflexo no ecrã tinha sido substituído pelas imagens que exigiam a minha atenção. Mas ela ainda ali estava, encostada a mim.
- Sabes que tenho que acabar isto...
- Eu sei, e não te quero impedir. Quanto mais depressa acabares, mais depressa te posso ter só para mim. Nem sequer quero distrair-te...
- Ah não?
- Não... - a voz dela tinha aquele trejeito meio-culpado de quando acaba de se aperceber do que estava a fazer. E a mão dela parou de vaguear pelo meu peito. Sorri. Respirei fundo (outra vez), inclinei a cabeça para trás e dei-lhe um beijo na bochecha. Apertei-lhe a mão, e assentei a minha no rato.
- OK, eu afasto-me da tentação...
Sabia que tinha de ser, e que ela não ia longe, mas... havia sempre uma parte de mim que queria continuar a sentir o toque dela...
- Já não devo demorar muito... P'raí meia hora. -Riu-se, e mesmo sem me virar podia adivinhar a expressão dela, a abanar a cabeça, sabendo que demoro sempre mais do que penso.
...
- Enganei-me... - Não me tinha apercebido que ela ainda ali estava. Virei-me e dei com ela encostada à ombreira da porta, ainda a sorrir.
- Então?
- Perguntou-me o que estaria a fazer se estivesse contigo, e eu respondi que estaria a pensar em trocar a mola do sofá. Afinal enganei-me. Se tivesse cá ficado, tinha ficado aqui assim, a ver-te trabalhar.
- Não estou a trabalhar muito...
- Pronto, OK, talvez ficar aqui não seja a melhor forma de não te distrair... Vou tomar banho, e depois trato do jantar, pode ser?
- OK...
"Não aconteceu nada"... Eu não estava preocupado com isso. Confiava nela. Mas soube-me bem ouvir aquelas palavras... talvez lá no fundo tivesse medo de ouvir as outras. Virei a minha atenção para o computador, para o trabalho que tinha para terminar. Não conseguia concentrar-me. Que raio, então agora é que tinha a cabeça às voltas? Voltei a olhar para o ecrã, e desta vez vi o meu reflexo. E apercebi-me que estava menos tenso, que me sentia mais leve. E que não era uma questão de confiança, mas de desilusão. E, desta vez, não tinha havido. Ela não tinha descido na minha consideração. Nem ele. E tinha voltado feliz... uma felicidade serena, calma. Agora que pensava nisso, antes de sair de manhã tinha-lhe notado um nervoso miudinho... Mas quando voltou...! A cara dela, os olhos, o andar... a maneira como se mexia, e como falava... Estava leve - como eu - radiante... e... tão bela...
Levantei-me num ápice, deixei um rasto de roupa do computador até à casa-de-banho, afastei a cortina e abracei-a através do vapor... Encostou-se a mim... Como é bom sentir que vai ser sempre assim...
4 March 2008
Ferro e fogo
Fazes as coisas mais lindas
por mim, e para mim
e sinto que não te retribuo tanto assim
Não tanto quanto devia,
nem tanto quanto mereces
No entanto, todavia
só queria que soubesses
que os poemas que escreveste,
e as canções que me gravaste,
são beijos que me deste,
são sorrisos que abraçaste.
Cada citação, cada palavra,
é mais uma pequena grande parte
do que me deixa marcada,
a querer apaixonar-te
Estás marcado em mim
a ferro quente das tuas mãos
e fogo da tua mente
Nada apaga uma marca assim:
não se vê, mas sei que sente,
que te sente sempre aqui
Por mais que viva,
e que tudo mude,
ninguém me tira o que já vivi,
ninguém me tira a ti.
24 February 2008
Malabarismos
- Hah! Falhaste! - Virei-me a sorrir.
- Queres guerra, é?
- Deves pensar que me metes medo!
- Pois devia... Hei!
- Não estavas à espera de um aviso por escrito, pois não?
- Ah ele é assim? - Desviei a cara. Enquanto tentava ripostar, pelo canto do olho dei por ele a aproximar-se. Comecei a bater os pés; levantei tanta espuma que deixei de o ver.
- Hei! Isso não vale! Agarrar é batota!
- Quem disse? Respira fundo.
- Olha que eu faço-te cócegas!
- Não digas que não avisei! - Voltei à superfície com uma gargalhada; ele também se estava a rir. Ficámos assim um bocado, até os nossos olhares se cruzarem. Desviei o meu, mergulhei a cabeça, passei a mão pela cara para não me pingar sal para os olhos. Abraçou-me por trás, com os braços por cima dos meus. Pôs um dedo no meu queixo e virou-me a cara até estar a olhá-lo nos olhos.
- Há bocado estava a gozar.
- Eu sei... - Sabia que era um meio-sorriso, mas não dava para mais.
- Mas...
Respirei fundo, apertei-lhe o braço com a mão.
- Mas... preferias que não o tivesse dito, mesmo na brincadeira?
- Não sei... Não... Quer dizer... Gosto de ter este à-vontade contigo... e... é bom sentir que podias gostar de mim
- Eu gosto de ti.
- Sabes que não é isso! O que eu quero dizer é que é bom... fazeres-me sentir "apetecível"- riu-se quando formei as aspas com os dedos - ... percebes?
- Pensei que agora que tens namorado te tivesse passado essa mania.
- Qual mania?
- Essa mania de te sub-estimares, e de te mandares abaixo.
- Ei, eu não me estou a mandar abaixo, 'tou só a dizer que sabe bem sentir que me consideras assim... Faz-me bem ao ego... - Desviei outra vez o olhar, encostei a nuca no peito dele, olhos no infinito. Desta vez, deixou-me estar.
- Mas...
- Mas estou feliz com ele, é a primeira pessoa além de ti que me faz sentir assim... especial. E, sim, de momento é o amor da minha vida, e... não vos quero sentir a competir.
- E não é bom teres rapazes a competir por ti? Não te faz bem ao ego?
- Não... não estes rapazes... são demasiado importantes... Não me quero sentir dividida, nem ter que fazer malabarismos... Quero apreciar o que tenho. Poder estar aqui contigo, e poder voltar para casa feliz, e dar cabo de outra mola do sofá
- Vocês não têm cama?
- E fazer-te cócegas, quando dizes disparates desses, e rir-me com ele... Tem um bom sentido de humor, acho que vocês se iam dar bem.
- Hei, eu já há bocado te disse que começo a gostar dele sem sequer o conhecer... Claro que quero conhecer quem te põe assim feliz! - Agarrei-lhe os braços e virei-me de frente para ele:
- Só há um problema. - Foi a vez dele ficar sério:
- Então?
- Então que depois fico tramada: juntam-se os dois a gozar comigo!
Atirei-lhe água para a cara, corri pela rebentação e ao longo da areia molhada, com o vento a acariciar-me a cara e o cabelo molhado a bater-me no pescoço...
... Espero que possa ser sempre assim...
13 February 2008
Um lugar sossegado...
"Mas agora [...], só queria apoiar a cabeça no seu ombro e pedir-lhe que me protegesse, como supostamente fazem os homens com as mulheres quando as amam."Isabel Allende, A soma dos dias
Desaparecer,
fundir-me em ti
Deixar-me envolver
sem pensar no que perdi
nem no que vou ter
Afundar-me,
com os teus braços à minha volta
O teu corpo a amparar-me
agora que estou solta
O compasso do teu coração no meu ouvido,
dominas-me os sentidos
e fazes-me parar
para te respirar.
E deixas-te estar,
em silêncio, todo o tempo que preciso
Como uma pele
vais-me aconchegando,
substituindo a armadura
encardida que vou largando.
7 February 2008
Insonia Inocente
A música rebenta-me nos ouvidos,
não costumo ouvi-la tão alto.
Mas hoje apetece-me sobrecarregar os sentidos,
sentir o ritmo num salto
Ter a música a envolver-me...
Apaguei a luz
Mais uma vez não consigo dormir
Mas hoje estranhamente não me chateia
Fones nos ouvidos, perdida no sentir
desta paz que me rodeia
Balanço ao ritmo de cada canção
fisicamente e na emoção.
Está em aleatório,
a tocar tudo o que tenho:
Cada nota inicial faz surgir uma imagem
neste filme mudo,
sem legendagem.
Os meus lábios formam cada letra,
E nem tenho de me lembrar
que não posso cantar
Porque o estou a fazer,
mas para dentro,
onde tem mais poder.
6 February 2008
Sexto Sentido
Saber quando o outro precisa de um abraço, ou de um aperto na mão, sem ninguém ver.
Saber ter conversas que ninguém ouve, por gestos que mais ninguém vê.
Ter as palavras certas na ponta da língua sem ter que pensar, como remédio pronto a dispensar.
Adivinhar as reacções, antecipá-las e deixá-las vir, porque são inevitáveis. E fazer tudo para ampliar as boas, dançando na sombra da felicidade do outro. E abrir os braços às más, recebê-las e dividir o peso, ou simplesmente trazer o conforto do que vai estar sempre lá.
Conhecer o outro melhor do que ele próprio se conhece, e admirá-lo por quem é. Sem julgar, sabendo que tudo o que ia mudar já mudou, e que é inútil lutar contra o que ficou. E sentir orgulho por nos ter escolhido. Orgulho em quem nos faz sentir. Orgulho e uma gratidão imensa por tudo. Tudo o que conseguimos, tudo por que passámos, tudo o que criámos, tudo o que ultrapassámos - tudo o que somos e vivemos.
Saber de cor os sorrisos, os tiques e os gestos, e ter os dotes mágicos de os fazer surgir do nada.
Completar as frases do outro, dar palavras à frustração indescritível, à fúria impotente e à felicidade emudecedora.
E ouvir os silêncios, entender as palavras que não são ditas, até as que não chegam a ser articuladas em pensamento.
Acalentar a cumplicidade natural e espontânea que surge da convivência e da empatia.
Ainda não estamos lá, mas já estivemos bem mais longe, e parece-me que estamos no bom caminho. Até (ou sobretudo) porque não parecemos ter precisado fazer grande esforço.
Dêem-nos mais uns anos... Até porque ainda há pouco foi dia 2... ;)