24 January 2012

Em memória de alguém que "nunca soube ser conhecido de ninguém", e com um abraço especial para o Zack, que mo descreveu assim.

Nunca soube muito sobre ti,
nem tu sobre mim.
Mas ainda assim
fomos amigos.

Não fumavas, não bebias,
nunca te faltavam energias
para a diversão.
Foste a minha mão
quando não a tinha.
Respeitaste a minha vida como minha.
Não sei se alguma vez nos julgaste
(acho que não);
sei que nunca arremessaste
nada na minha direcção.

Deste-me uma alegria
que pensava que não ia ter.
E acredita que foi um prazer
ter-te como par
no "baile", e depois ir dançar!

Sempre gostei da tua companhia
e agora que penso nisso
tinhas sempre um sorriso.
Apesar das provações
(e sei que as tiveste – mais do que eu).
Esse espírito teu
de aceitar o que vem
e procurar o que se quer,
só há pouco o comecei a reconhecer.

Partilhávamos o gosto pela Natureza
mas ganhavas-me em formas de a explorar.
Ao teu lado nunca me senti presa
nem obrigada a falar.
E apesar de estar a léguas
da tua forma, e de não "ciclar"
nunca senti que te estava a atrasar.

Lembro-me de parar de dançar
para te ver.
Admirar os movimentos, ritmados
mas sobretudo o sentimento;
todo o teu corpo a anunciar
que para ti, naquele momento,
não havia mais nada:
só a música que te enchia o ser.

Cedo demais, 
num risco a chiar,
o teu disco parou.
Mas a tua música continua a tocar
em cada um de nós que cá ficou.




2 September 2011

Happier than ever

Eyes meet, hearts beat,
Words combine, minds entwine,
Kisses seal, hugs heal,
Habits collide, and don’t divide,
And now that finally the time arrives,
the pledge to share our lives
is no surprise:
I am yours, and you are mine.

7 August 2011

Inspiration...

It should be easy to write
of a love so dear, so tight,
but words seem to fail me
all I write seems too pale,
too contrived, too mundane,
or too sentimental to share.
Where have my words gone, where?

12 March 2011

Amizades - III


Não sei até que ponto te apercebeste do quão importante foi a tua amizade numa altura turbulenta da minha vida. Em parte, porque nunca te falei desses tumultos. Nunca senti necessidade; não eram para ali chamados. Porque contigo estava noutro mundo, longe desses reboliços da escola. Num mundo de saltos, treino, competição, mayllots... mas também de bom-senso, pedagogia, aprendizagem... Na frente da carrinha do clube, enquanto o pessoal dormia ou brincava lá atrás, discutíamos as atitudes dos outros treinadores e ginastas quase tanto como a execução e dificuldade das séries que levavam a prova, ou as pontuações.

Nem tudo eram rosas. Houve alturas em que me levaste aos arames, e me tiraste do sério – e informei-te disso alto e bom som, com os gritos e as lágrimas que me saem em momentos de profunda irritação. Agora que penso nisso, deve ter havido momentos em que te fiz desesperar, também, quando um medo infundado me impedia de fazer o que querias, ou de tentar sequer.

Apesar disso – ou talvez em parte por causa disso – ajudaste-me a arranjar estratégias para ultrapassar os nervos – ou melhor, para os canalizar de forma útil, como aprendemos juntos que era preferível. Deste-me um lugar seguro, onde ser eu própria. Reconheceste a minha dedicação, e a minha ligação a alguns dos miúdos, e puseste-a a uso para o bem de todos os envolvidos. Davas-me boleia na tua mota uma vez por semana para que pudesse ter mais um treino, e nunca gozaste comigo quando no Inverno – e por insistência da minha mãe – levava vestido o fato de mota que tinha sido do meu pai, e que me ficava comicamente grande.

Acima de tudo, e apesar de me conheceres desde os meus 10 anos, e de me teres visto crescer, apercebeste-te de que tinha crescido, e a certa altura começaste a tratar-me de igual para igual. Passámos a ser amigos. Ensinaste-me muita coisa, mas sobretudo deste-me espaço para ser confiante. Na altura não o sabíamos, mas estávamos a criar memórias que provavelmente vão ficar comigo o resto da vida, e ser reavivadas sempre que vejo um dos poucos filmes que tenho de campeonatos e saraus. Emoções que são reavivadas quando vejo os trampolins nos olímpicos, na TV... Sim, que deixei de saltar há anos, mas ainda sonho regularmente com os trampolins... e acho que em parte isso também é culpa tua!

Amizades - II


Há bocado estava a ouvir um CD do Luís Represas, e lembrei-me de ti. De me teres gravado um CD duplo de um concerto dele no CCB, depois de o termos ouvido juntos no teu carro, a caminho da faculdade.

Não sei se alguma vez te disse, mas gostava dessas boleias. Estavas sempre bem-disposto de manhã – mesmo quando a vida não te corria de feição – e punhas-me a mim bem disposta. Conversávamos sobre tudo e nada. Nunca faltava tema, a conversa fluía simplesmente. E chegávamos à faculdade sorridentes, antes das oito da manhã.

Se chegávamos excepcionalmente cedo, ainda ficávamos mais um bocado no carro, a conversar. Depois saíamos, cada um para o seu curso, as suas aulas, o seu grupo de amigos. Cruzávamo-nos de vez em quando (sobretudo no período em que namoraste uma rapariga do meu curso), cumprimentávamo-nos e tal, mas não falávamos, propriamente, fora dessas boleias matinais. Talvez seja por isso que perdemos o contacto quando acabámos os cursos...

Da última vez que te vi, por acaso, num regresso à faculdade, estavas magríssimo, e deste a entender que tinhas tido problemas graves de saúde... Espero que os tenhas ultrapassado, e que estejas algures a realizar o teu potencial. Todos os anos, na passagem de ano – que é também o teu aniversário – penso: Que é feito de ti?

Amizades - I

Tenho sido uma amiga desnaturada. Pródiga em promessas por cumprir, e parca em contacto. Sei – ou acho que sei – que não me levas a mal, mas eu levo a mal a mim mesma.

Se te dissesse a quantidade de vezes que penso em ti, acho que não acreditavas. A quantidade de coisas que leio e penso que te interessariam, ou que gostarias de ler. Coisas que gostaria de discutir contigo.

Então porque estou a escrever isto, em vez de estar a dizer-to? Estou longe, mas tenho telefone. Só que... de alguma forma bizarra, lembro-me de ti n vezes ao dia, enquanto estou no trabalho, mas depois quando estou em casa distraio-me a fazer outras coisas, e não me lembro de te telefonar. Ou lembro-me tarde e a más horas, quando já estás a dormir. Como agora...

A ver se amanhã te telefono...

22 September 2010

Explicação...

Algo em mim descontrai
quando pouso o braço
no teu regaço
A respiração muda de compasso,
o pensamento esvai-se...
Fica para trás o corropio do dia,
e o livro que há pouco lia...

De alma cheia e mente vazia,
sinto os sistemas a desligar;
sinto-me a flutuar,
pensamento nublado:
"Houve um beijo acordado,
ou já estou a sonhar?"

Sozinha não deslizo assim para o sono,
sozinha não me abandono...
É por isso que te peço
que estejas a meu lado enquanto adormeço.

28 June 2010

Science Education? Humpf!

This post is my humble contribution to Spoof Jenkins Monday, which you can read all about here, and follow on twitter under #spoofjenks - it doesn't even come close to some of the others, but I thought I'd add it to the throng, in support of the idea...

Science education? Give me the money, instead! I’ll teach you all you need to know.
Squandering money on science education is just pandering to the science lobbyists: they’ve already insinuated themselves into our esteemed broadcasting corporation, now they want to take away our children, too.

Polluting young minds with the knowledge of what probabilities are, the ability to assess relative risk, or a notion of prevention? Preposterous! Next they’ll be suggesting we raise youngsters who are capable of independent thought, of coming up with explanations for what they see around them and – Heaven forbid! – of testing those explanations. This is a dangerous path to tread. It leads to dark, dark places, where an unfounded rant can be exposed as just that, and ridiculed with impunity, instead of getting the appreciation its author necessarily warrants.

I have been blissfully – even intentionally – ignorant of science all my life, and I’ve never seen the point of it. Why should anyone else? Worse, why should we spend taxpayers’ money to make more people able to understand such drivel? And as for the argument that scientists pay taxes too – that’s irrelevant, and besides, everyone knows they are among the worst tax evaders out there. In fact, the next financial crisis will undoubtedly be all their fault.

After all, let’s not forget the golden rule: it’s OK – just about – to wonder, but never, under any circumstance, to question.

7 June 2009

I wasn't lost but I was missing
all the things I didn't know.
All the smiles that you would give me,
all the space to help me grow.

I wasn't looking when I found you;
it kind of caught me by surprise.
I don't know what it was that bound you,
but I was hanging from your eyes

They saw things I didn't know,
things I didn't dare to look for...
Your wit pierced through to my soul,
touched a chord unheard before...

You made my smile a permanent fixture
in those dazzling first few weeks,
and even almost eight years later
you still keep it on my lips!

I'd like somehow to thank you,
but can't seem to find the song...
Guess I'll just wrap my arms around you
and love you all life long.

2 October 2008

Nove e dez...


Ter esta conversa, pelos dois lados, sempre que for preciso...

Não que esta seja uma dessas ocasiões, até porque ultimamente têm sido todos excepcionalmente queridos comigo... obrigada!

A imagem é parte deste capítulo do webcomic em que ando viciada: Something Positive, de Randy K Milholland.

28 September 2008

8 Coisas...

A excelentíssima Rain desafiou-me a escrever 8 coisas que gostaria de fazer antes de morrer... Não sei porquê 8, mas sempre é um número diferente do costume... Ora aqui vão elas, sem nenhuma ordem especial:

- usar o teleporte para poder sempre estar com quem quero

- ir à Austrália e à Nova Zelândia (e a vários outros sítios, mas estes estão no topo da lista)

- engravidar (desculpa, Rain...)

- fazer rappel (e possivelmente escalada) numa parede natural

- conseguir retribuir a todas as pessoas que me fazem feliz (Obrigada...)

- ensinar uma certa pessoa a nadar, e re-aprender a andar de bicicleta

- ver aqui outro post do Zack

- saltar uma última vez

E, como sou uma daquelas pessoas que ou são altamente cegas ou irritantemente persistentes... passo o desafio aos suspeitos do costume: Balmoth e Zack. Mas como ainda tenho noção da realidade suficiente para saber a probabilidade de responderem, acrescento ainda a regressada MJNuts, porque tenho curiosidade de saber as suas 8... ;) E a Mireia - prometo esforçar-me por perceber a resposta en catalán...

7 September 2008

For my happiness

Will you follow me
if I decide to roam far?
I know who you are,
but I wonder what you'd do...
You're independent,
and maybe that's why I love you

You told me once
you wouldn't fight for me
Though in saying so, you did:
giving me up for my own happiness
made me see that you were it.

And yet I sit and wonder
My heart refuses to heed my brain
I know you want to make this work,
but if the choice comes again...
... Will you let me fly north,
south, east, west,
because for me it's best,
but stay behind to live your life?

Because I'd rather not take flight
if it means leaving you behind
I'd rather not open my wings
and heed the song that my heart sings
I'd rather stay,
flightless and caged,
but stay engaged...

I love that you encourage me to fly,
but please don't hesitate to ask me to stay
because to me happiness is you and I,
no matter what, and come what may.

18 June 2008

Right then

You looked like Christmas morning,
and smelled like a spring day
You felt like the summer night
when I was blown away...

23 May 2008

Linda...

Inclinei-me para trás e deixei a água escorrer-me pela cara. Passei a mão pelos olhos, mas deixei-os ficar fechados. Respirei fundo, e soube-me bem a humidade quente do ar, e o cheiro a champô. Deixei-me estar só mais um instante, a sentir a massagem da força da água a bater-me na cabeça. Ajeitei-me, para que o jacto me batesse na nuca, depois nas costas. Estava a começar a pensar que devia mexer-me, quando entrou na casa-de-banho. Ia a perguntar-lhe, incrédula, se já estava despachado, quando afastou a cortina. Atrás dele, vi a porta da casa-de-banho aberta: tinha vindo direito a mim. Abraçou-me, e senti-o estremecer quando me encostei a ele.
- Fecha a cort
- sshhh... - Pôs um dedo nos meus lábios em sinal de silêncio, e selou-os com o primeiro de uma chuva de beijos rápidos, vagueando-me pela face até ao pescoço. Por um momento fiquei parada, sem conseguir fazer nada a não ser apreciar o tamborilar: dos beijos dele no peito, e das gotas de água nas costas... Senti-lhe a mão a fugir da água, por reflexo, e estiquei a minha para a torneira da água fria, aumentando a torrente.

- Vamos inundar a casa-de-banho! - Já virada outra vez para ele, levantei a mão na direcção da cortina, mas ele agarrou-ma, avançou até ficar encostado a mim, e plantou-a na própria nádega. Enquanto o apertava com força contra mim, quase em bicos de pés, ele desligou as torneiras. Segurou-me as mãos, deu um passo atrás, e o olhar dele não me percorreu, envolveu-me.
- És linda...
E eu senti-me linda, enquanto saiu do chuveiro, ainda de mãos dadas comigo, e me guiou até ao quarto...


... e ainda me sinto linda, aqui deitada no lençol molhado, enquanto me olha dos pés da cama com ar de quem quer guardar o momento para sempre, e repetir tudo outra vez.
Uma parte de mim diz-me que devia lembrar-lhe que tem trabalho para acabar, mas não consigo forçar os lábios a formar as palavras... Tem que ser... Respiro fundo, mas quando abro os olhos está a gatinhar por cima do meu corpo, até estar praticamente deitado. O ar quente que lhe sai da boca acaricia-me o ouvido:
- Amo-te.
E nesse instante estou rendida. Não há mais menina bem-comportada e responsável, não há preocupação, não há dever, não há pensamento.


Só há o meu ser a querer para sempre fazer parte do teu...

9 May 2008

Suave pensamento...

Respiro fundo, e espreguiço-me. Sabe bem chegar a casa. Sento-me na cama para descalçar os sapatos, e não resisto a deitar-me para trás e rever (outra vez) a cara dela. Aquele instante em que a surpreendi perdida nos próprios pensamentos, enquanto toda a gente à volta conversava... Gostava de a ter fotografado naquele momento, captado aquele olhar, a tranquilidade daquele rosto... sem o nervosismo que tantas vezes se apodera dela... E captei, não em filme, mas na memória... Pergunto-me em que estaria a pensar... O gato roça-me as pernas e salta-me para o colo, obrigando-me a voltar à realidade.
- Também queres ser peluche, é? Olha, somos dois... Vá, anda lá, já que não me deixas ficar aqui a pensar, ao menos deixa-me tirar a tralha dos bolsos! Telemóvel - acabei de sair de ao pé dela, porquê a leve desilusão por não ter mensagens? - ...chaves, aqui na prateleira de cima para um certo bicho não andar a correr pelo corredor fora com elas, carteira, lixo... - Olhei para o papel que tinha na mão, e em vez de um qualquer folheto do Dr. Mamba ou da loja-não-sei-quê, era... um papel branco, dobrado. Desdobro-o, e o coração acelera ao reconhecer a letra. Leio. Levanto os olhos do papel para absorver o que acabo de ler; volto a baixá-los, e leio tudo novamente. O poema, e a mensagem por baixo... duas vezes, essa leio-a duas vezes.

Enquanto esperava que chegasses, saiu-me isto...

por uma vez, abençoo a minha tendência crónica para os atrasos...

Quando chegaste com o peluche, nunca mais me lembrei

sorrio

não sei porquê... ;P

faz sempre os smileys de lado, mesmo quando escreve à mão

Entretanto chegou o resto do pessoal, e já não deu para to entregar. Mas queria que o recebesses, sobretudo depois do que fizeste... depois de tudo o que fizeste, e não estou a falar só do peluche! Obrigada. Obrigada

tive que dar uma meia gargalhada: muito gosta ela desta palavra!

pelo peluche, adorei... nunca tive nenhum tão suave... tal como nunca senti uma pele tão suave como a tua, nem um toque tão carinhoso como o teu... Obrigada! Amo-te mais do que algum dia saberei dizer-te, e só espero um dia poder recompensar-te como mereces

Já recompensaste! Será possível que ela não o veja? que não veja o sorriso nos meus olhos e a leveza do meu passo assim que a vejo? Como esta manhã, quando a vi, lá do fundo, sentada na esplanada... a escrever! A escrever este poema... levantou a cabeça pouco depois, e ficou a ver-me aproximar... De certeza que viu como gostei de a sentir observar-me... admirar-me... Quase tive vontade de desacelerar o passo, para sentir aquele olhar de apreciação por mais tempo... Mas queria estar perto dela, dar-lhe o beijo de bons-dias, e o peluche... Sorrio ao lembrar-me: quase tive que a obrigar a abrir o embrulho! Mas... quando é que ela teve tempo de escrever o resto? E como é que me pôs o bilhete no bolso sem eu dar por isso? Quando fui à casa-de-banho? Não, nessa altura já tinha chegado pessoal... Ela não escrevia isto no meio do pessoal, e não me lembro de ter ficado sozinha... A não ser... quando ficou a guardar a mesa enquanto eu e o João fomos comprar o lanche! Descobri-te! Mas... como é que me meteste o bilhete no bolso sem eu dar por nada? Quando nos beijamos as nossas mãos costumam ocupar-se com outras coisas, e à despedida estavas abraçada a mim, e tinhas o peluche na mão - realmente, não o largaste o dia todo! - mas... que importa? De alguma forma, essas mãos de fada conseguiram surpreender-me outra vez... "tal como nunca senti uma pele tão suave como a tua, nem um toque tão carinhoso como o teu"... ai, pudesse eu tocar-te agora, fazia-te carinhos até o mundo acabar... A minha mão parou, e é então que me apercebo que estava mecanicamente a fazer festas ao gato. Devo-me ter sentado na cama enquanto lia, mas nem dei conta... desta vez, nem o salto do gato para o colo me despertou do sonho com aquela cara...
- Vamos jantar?
- Vou já, mãe...
... primeiro tenho só que mandar uma mensagem...

"Não imaginas como fiquei feliz ao encontrar o teu bilhete! Enquanto me deixares, o meu toque continuará a cobrir de carícias a tua pele suave e alva..."

22 April 2008

Máquina do tempo

Abraço o peluche. Fecho os olhos, respiro fundo...
...e de repente estou outra vez na esplanada. A saia-calção cinzenta descobre-me o joelho quando cruzo as pernas. Combina com a cor do peluche, que sobressai contra a camisola branca. Ainda não o larguei desde que mo deste, há uma hora. Estou sentada à espera que voltes, nem me lembro bem de onde. Estranhamente, não me lembro exactamente quando foi que tudo isto aconteceu, mas lembro-me da roupa que tinha vestida. Talvez porque não me lembro de voltar a vestir aquela saia, nem sei bem porquê. Sei que estava um dia cinzento, mas não chovia - o meu casaco cinzento não é impermeável. Voltaste. Há conversas à nossa volta, estás a falar com o João, mas é tudo ruído de fundo. O cinzento do lápis destaca-se no branco da página, no poema em cima da mesa colorida. Escrevi-o esta manhã, sentada aqui a tomar café. Cheguei cedo, como de costume. Sentei-me a saborear o momento, os minutos de paz antes de o dia começar realmente, e o poema saiu. Pousei o lápis e fiquei a olhar o vazio, até que o teu andar característico o preencheu. Vi-te lá ao fundo, sorri, e fiquei a admirar-te enquanto caminhavas na minha direcção. Beijaste-me, e ia a abraçar-te quando puseste algo entre nós.
- Que é isto?
- Que é que te parece? É um embrulho.
- Sim, isso vejo eu. Mas...
- É para ti.
- Mas... eu não faço anos, e hoje não é nenhuma data especial...
- Pensava que já te tinha dito que não ligo a números e datas, ligo a momentos.
- Sim, quando eu liguei de mais... - Baixei o olhar, mas tive que o levantar quando me respondeste:
- Como estás a fazer agora, em vez de pegares nisto?
- OK, OK, afinal o que é?
- Abre e vê.
- Oh... Obrigada! É tão fofo... Amo-te, sabias?
- Bah, só dizes isso porque eu te dou peluches queridos.
Normalmente, responder-te-ia com o típico "Mongo!", mas optei por calar-te com um beijo abraçado, e ficámos os dois a sorrir, em pé ao lado da mesa.

Já sentados, olhaste o peluche:
- É para teres alguém para abraçar, quando não estou contigo.
Sentei-me ao teu colo - sempre fomos assim poupados em cadeiras - e ficámos assim os três. Os meus braços à volta do peluche apoiado no meu colo, e os teus por cima dos meus, à minha volta. Em silêncio, porque contigo o silêncio não é incómodo nem estranho, é partilhado... Até que alguém chegou, e começámos na conversa, e tu foste, e voltaste, e... reparei agora no poema, cinza no branco ainda em cima da mesa. Com a surpresa esqueci-me, ainda nem to dei! Agora no meio do resto do pessoal também não dá; fecho a capa para ninguém o ler sem querer. Encosto-me na cadeira, com as pernas a roçar as tuas. A conversa continua à minha volta, mas sem dar por isso desliguei... O meu corpo está presente, mas o pensamento está difuso numa nuvem de felicidade...

Aprecio o cinzento do dia, nem preto nem branco. Mais indefinido, mas mais complexo e mais rico por isso... Aperto o abraço ao peluche, e deixo-me estar, algures entre o passado e o futuro, no cinzento da mistura das memórias e das esperanças... E aprecio a beleza do cinzento da minha vida...
... Não quero abrir os olhos no negro da noite, e ver o branco do lençol onde não estás...

14 April 2008

Writers' block

Estou sentada em frente de um ecrã em branco, a querer escrever a continuação de uma história de amor. Sei como começar o capítulo, mas não como pode acabar. E não consigo deixar-me levar. Já comecei “n” vezes, mas só me vêm à mente passagens saudosas e enredos vazios, que não encaixam com este momento da história, alegre.

Tu não estás aqui. Ou melhor, eu não estou aí. E, de momento, queria tanto estar no mesmo sítio que tu... não só fisicamente, mas psicologicamente, a nível de entusiasmo. Nunca te vi tão empenhado numa coisa como estás nesse curso, nunca te senti tão feliz com o que estás a fazer, e sinceramente... invejo-te isso, porque acho que nunca me senti assim, em termos de carreira. É bom sentir-te assim, entusiasmado, e queria estar mais perto para me poderes contagiar. Procuro inspiração em todos os momentos lindos que me deixaste na memória, mas quando começo a escrever as palavras ganham vida própria e fogem para situações em que só está um, com saudades do outro.

Talvez devesse pegar por aí, mas esta história vive de diálogos, e é difícil ter um diálogo com uma personagem sozinha... Só se começar com um re-encontro... Já que não consigo (ou não me chega) reviver momentos passados, talvez me faça bem projectar sentimentos futuros...

16 March 2008

Dias raros...

Estava um rapaz sentado na plataforma. Não dei por ele até descer do comboio, e nem sequer o consigo descrever. Acho que era moreno, devia ter p'raí a minha idade. Só sei que ao passar por ele a caminho das escadas senti que me seguia com os olhos. E sorri. As calças estão-me largas, assentam-me mal. A camisola não é nada de especial. Entre o vento e a humidade, o meu cabelo está decididamente num dia mau, e tenho olheiras quase até ao queixo, que me recuso a esconder com maquilhagem. E no entanto hoje sinto que consigo realmente fazer virar cabeças, e ser seguida por olhares apreciadores. Não sei porquê - não me aconteceu nada de especial - mas sinto que há qualquer coisa no meu andar, e no meu sorriso, hoje, que não costuma lá estar. A confiança transformada em charme, um certo "je ne sais quoi". Geralmente tenho consciência da minha aparência e das minhas limitações, e não é que hoje tenha ilusões... Simplesmente todas as regras parecem suspensas, por umas horas... por umas horas, os factos não contam, são destronados por esta "aura" que me envolve, e me alimenta o ego.

São raros, estes dias em que me sinto capaz de brilhar mais que as belezas convencionais. Não sei como surgem, nem porquê, nem quando, mas pouco me importa. Basta-me desfrutá-lo, como uma flor que desabrocha.

6 March 2008

Porto de abrigo

Senti-lhe o sorriso antes de o ver reflectido no monitor. Não sei como, mas sinto sempre quando entra em casa feliz. Talvez pelo passo leve, ou por ter vindo logo ter comigo, em vez de se demorar na entrada. Levantei os olhos do teclado, e lá estava a cara dela, a sorrir-me no reflexo. Ombros encaixados por cima dos meus, cabeça ao lado da minha, braços a unirem-se abaixo do meu pescoço, abraçou-me. Pôs-se ao meu lado, girou-me a cadeira até estar de frente para ela, e os olhos dançavam quando me disse:
- Não aconteceu nada.
Sorri. - Nem eu esperava que acontecesse. - E era verdade. Mas...
- Quis dizer-to na mesma. - Deu-me um abraço daqueles que são mais apertões do que abraços de facto, e reparou no ecrã.
- Ainda tens muito trabalho para fazer?
- Algum...
- OK... - Tinha-me virado outra vez para o computador, e estava outra vez atrás de mim, com os braços à minha volta, por cima dos meus ombros. Não sei porquê, adora pôr-se assim, quando está descontraída. Encostou a face ao de leve na minha cabeça, e deixou-se estar, em silêncio. Por uns instantes, limitei-me a sentir o peso dela nos meus ombros, a pele que me tocava a orelha, o calor da respiração... Quando abri os olhos, quebrou-se o encanto: o reflexo no ecrã tinha sido substituído pelas imagens que exigiam a minha atenção. Mas ela ainda ali estava, encostada a mim.
- Sabes que tenho que acabar isto...
- Eu sei, e não te quero impedir. Quanto mais depressa acabares, mais depressa te posso ter só para mim. Nem sequer quero distrair-te...
- Ah não?
- Não... - a voz dela tinha aquele trejeito meio-culpado de quando acaba de se aperceber do que estava a fazer. E a mão dela parou de vaguear pelo meu peito. Sorri. Respirei fundo (outra vez), inclinei a cabeça para trás e dei-lhe um beijo na bochecha. Apertei-lhe a mão, e assentei a minha no rato.
- OK, eu afasto-me da tentação...
Sabia que tinha de ser, e que ela não ia longe, mas... havia sempre uma parte de mim que queria continuar a sentir o toque dela...
- Já não devo demorar muito... P'raí meia hora. -Riu-se, e mesmo sem me virar podia adivinhar a expressão dela, a abanar a cabeça, sabendo que demoro sempre mais do que penso.

...
- Enganei-me... - Não me tinha apercebido que ela ainda ali estava. Virei-me e dei com ela encostada à ombreira da porta, ainda a sorrir.
- Então?
- Perguntou-me o que estaria a fazer se estivesse contigo, e eu respondi que estaria a pensar em trocar a mola do sofá. Afinal enganei-me. Se tivesse cá ficado, tinha ficado aqui assim, a ver-te trabalhar.
- Não estou a trabalhar muito...
- Pronto, OK, talvez ficar aqui não seja a melhor forma de não te distrair... Vou tomar banho, e depois trato do jantar, pode ser?
- OK...

"Não aconteceu nada"... Eu não estava preocupado com isso. Confiava nela. Mas soube-me bem ouvir aquelas palavras... talvez lá no fundo tivesse medo de ouvir as outras. Virei a minha atenção para o computador, para o trabalho que tinha para terminar. Não conseguia concentrar-me. Que raio, então agora é que tinha a cabeça às voltas? Voltei a olhar para o ecrã, e desta vez vi o meu reflexo. E apercebi-me que estava menos tenso, que me sentia mais leve. E que não era uma questão de confiança, mas de desilusão. E, desta vez, não tinha havido. Ela não tinha descido na minha consideração. Nem ele. E tinha voltado feliz... uma felicidade serena, calma. Agora que pensava nisso, antes de sair de manhã tinha-lhe notado um nervoso miudinho... Mas quando voltou...! A cara dela, os olhos, o andar... a maneira como se mexia, e como falava... Estava leve - como eu - radiante... e... tão bela...

Levantei-me num ápice, deixei um rasto de roupa do computador até à casa-de-banho, afastei a cortina e abracei-a através do vapor... Encostou-se a mim... Como é bom sentir que vai ser sempre assim...

4 March 2008

Ferro e fogo

Fazes as coisas mais lindas
por mim, e para mim
e sinto que não te retribuo tanto assim

Não tanto quanto devia,
nem tanto quanto mereces
No entanto, todavia
só queria que soubesses
que os poemas que escreveste,
e as canções que me gravaste,
são beijos que me deste,
são sorrisos que abraçaste.

Cada citação, cada palavra,
é mais uma pequena grande parte
do que me deixa marcada,
a querer apaixonar-te

Estás marcado em mim
a ferro quente das tuas mãos
e fogo da tua mente
Nada apaga uma marca assim:
não se vê, mas sei que sente,
que te sente sempre aqui

Por mais que viva,
e que tudo mude,
ninguém me tira o que já vivi,
ninguém me tira a ti.